quinta-feira, 5 de maio de 2016

Gastando meu latim (Por Fernanda Pompeu) - Momento Leitura

Mamãe estudou latim no ginásio como matéria obrigatória. Hoje ela está com quase oitenta anos, e faz um tempão que o latim foi expurgado das escolas. Uma das alegações para o banimento foi a de se tratar de uma "língua morta". Ou seja, documentada, mas sem falantes nativos.
No entanto várias latinices vivem na ponta da nossa língua. Exemplo, o elegante in memoriam que recorremos para homenagear alguém que já se mandou, ou foi mandado, para o andar de cima. Alguém de quem gostávamos é claro. Para os desafetos deveria existir um "em esquecimento".
 também a petulante duplinha do a priori e a posteriori. Deixa o falante bem na fita: "A priori acredito em você, a posteriori vamos ver." Ótimo para quem não quer se comprometer, para quem prefere observar o mundo de cima do muro.
Outras. Habitat é palavra conhecida por crianças a partir dos três anos. Pela gurizada que já nasce ecologicamente correta. O batidíssimo status, então, está na mente da maioria de nós. A falta dele faz muito marmanjo perder a vaidade.
Agora statu quo, "estado dominante", é coisa de sociólogo. Superávit, coisa de economista. Publicitários adoram vox populi, vox dei, pois apostam que "a voz do povo é a voz de Deus". Psicólogas apontam o foco para o nosso alter ego, "o outro eu".
Mas categoria tarada mesmo por latim é a dos advogados - de defesa e de acusação. No lugar do banal "com licença", preferem o data venia! Mandam ver sub judice, "em juízo". E ad nauseam, "até a náusea", requerem habeas corpus, em versão livre "que saias do xilindró" para seus clientes.
Novelistas de tv e roteiristas de séries americanas não confessam, mas usam muito o Deus ex machina. Essa expressão significa uma "solução artificial". Trata-se de situação ou personagem que cai de paraquedas para resolver a trama.
Para mim, o mais saboroso latinório é Carpe diem! Sua tradução é "aproveite o dia". Isto é, curta o momento presente e descubra o que ele oferece, pois o passado se foi e o futuro mora numa bola de cristal. Ipsis litteris.
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Por Fernanda Pompeu | Mente Aberta
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