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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

GESTÃO de SALA - Por Pedro Almeida (Momento Leitura e Reflexão)

O Estado me oferece:
Uma sala medieval com 40 alunos hipermodernos. Cada aluno com um celular sofisticado, com múltiplas funções. Para lidar com tudo isso, recebo um instrumento de última geração: GIZ. São 50 minutos com 40 alunos de todos os jeitos e trejeitos. Uns bem-amados, disciplinados, bem-humorados, educados, respeitosos; outros, mal-amados, revoltados, indisciplinados, mal-humorados , desrespeitosos. E, pra piorar, há amontoados de papéis para preencher. Diante desse quadro desolador, o professorado recebe um mandamento mágico: GESTÃO de SALA. A tal falácia, Gestão de sala, – diante de um contexto desfavorável - é uma forma que encontraram para culpabilizar os professores pelo descaso da família e do Estado.
Um garoto agrediu uma garota: Gestão de sala!
A garota chegou com fome e com sono: Gestão de sala!
O/A namorado(a) foi embora: Gestão de sala!
Não aprendeu em casa o que são limites: Gestão de sala!
Família desestruturada: Gestão de Sala!
Mamãe não me ama: Gestão de sala!
Papai deixou mamãe: Gestão de sala!
Não dormiu direito, ficou jogando à madrugada toda: Gestão de sala!
Escola desestruturada: Gestão de sala!
Faltam funcionários: Gestão de sala!
Extraviaram o dinheiro da merenda: Gestão de sala!
Salário defasado: Gestão de sala!
Problemas com drogas: Gestão de sala!
Gestão de sala! Gestão de sala! Gestão de sala!

O Problema é coletivo. Se houvesse uma boa gestão fora da sala (Estado e família) não teríamos tantos problemas dentro de sala.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Maior Bronca que Já Levei (Momento Leitura e Reflexão)

Tínhamos uma aula de Fisiologia na escola de medicina logo após a Semana da Pátria. Como a maioria dos alunos havia viajado aproveitando o feriado prolongado, todos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral.
Um velho professor entrou na sala e imediatamente percebeu que teria trabalho para conseguir silêncio. Com grande dose de paciência tentou começar a aula, mas você acha que minha turma correspondeu? Que nada. Com um certo constrangimento, o professor tornou a pedir silêncio educadamente. Não adiantou, ignoramos a situação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que já presenciei. Veja o que ele disse:
- Prestem atenção porque eu vou falar uma única vez – disse, levantando a voz e um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala e o professor continuou.
- Desde que comecei a lecionar, e isso já faz muitos anos, descobri que nós, professores, trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos observei que de cada cem alunos, apenas cinco são realmente aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95% servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil. O interessante é que essa porcentagem vale pra todo o mundo. Se vocês prestarem atenção notarão que de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença; de cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais. E podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais. É uma pena muito grande não termos como separar esses 5% do resto, pois se isso fosse possível, eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora, então teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranquilo sabendo ter investido nos melhores. Mas, infelizmente não há como saber quais de vocês são esses alunos. Só o tempo será capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto. Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de hoje.
Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após aquele discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, pois minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia durante todo o semestre; afinal, quem gostaria de espontaneamente ser classificado como fazendo parte do resto? Hoje não me lembro de muita coisa das aulas de Fisiologia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida. De fato, percebi que ele tinha razão e, desde então, tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%, mas, como ele disse, não há como saber se estamos indo bem ou não; só o tempo dirá a que grupo pertencemos.

Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo que fazemos, se não tentarmos fazer tudo o melhor possível, seguramente sobraremos na turma do resto.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender (Momento Leitura e Reflexão)

Ensinar não deveria ser uma ANGÚSTIA
Ensinar não deveria ser PERIGOSO
Ensinar não deveria minar a SAÚDE
Ensinar não deveria ser CASO DE POLÍCIA
Ensinar não deveria DESESPERAR
Ensinar não deveria ser de QUALQUER JEITO
Ensinar não deveria fazer DESISTIR
Ensinar não deveria ter de aceitar a FALTA DE EDUCAÇÃO FAMILIAR
Ensinar não deveria ter de ENGOLIR SAPO
Ensinar não deveria ser para ver a VIOLÊNCIA DENTRO DA SALA DE AULA
Ensinar não deveria ser para receber DESRESPEITO

Tudo isso e muito mais vai tirando um pouco, a cada dia, o desejo de ENSINAR de muitos Professores que sentem na pele, no coração e na alma as agruras da profissão.


(Rubem Alves)